Faleceu o controverso jornalista, historiador e escritor britânico, Basil Davidson
Faleceu o historiador e jornalista, Basil Davidson, no dia 9 de Julho, com 95 anos. Um dos melhores conhecedores de África foi o único repórter
que, durante as guerras coloniais, visitou as regiões libertadas da Guiné, Angola e Moçambique, conduzido pela mão de Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Eduardo Mondlane. Deixou quase 40 livros escritos, vários dos quais editados em Portugal. "Na vida, e especialmente no jornalismo, tem de se ter sorte, muita sorte!" - gostava de dizer.
Major dos Serviços Secretos na Segunda Guerra
Basil Davidson nasceu a 9 de Novembro de 1914, em Bristol. Foi com o olhar puro e generoso da juventude que acompanhou a guerra civil de Espanha. "Ainda alimentei o projecto de me oferecer como voluntário" para as fileiras republicanas - onde combateram inúmeros jornalistas e intelectuais ingleses e europeus. O projecto ficou adiado durante um par de anos, até estalar "a nossa guerra".
Pertenceu ao Exército britânico durante quase seis anos. "Alistei-me como voluntário em Janeiro de 1940 e larguei o Exército após a libertação da Itália", na Primavera de 1945. Pertenceu ao SOE - Special Operations Europe, uma espécie de antecessor do MI6, os conhecidos serviços secretos britânicos.
Encontro com a África
O primeiro país que estudou foi o Gana, quer devido à forte personalidade de Nkrumah quer pelo facto de ter sido o primeiro país da África Negra a conquistar a independência em 1957 após a II Guerra Mundial.
Três vezes na Guiné...
À Guiné-Bissau, deslocou-se inclusivamente por três vezes. A estreia foi em 1967, acompanhado por Amílcar Cabral. "Mas não foi uma missão de guerra. Aliás, nunca levei qualquer arma comigo" - esclareceu, numa entrevista concedida ao Expresso e publicada em 3 de Fevereiro de 2001. À Guiné haveria de voltar mais duas vezes (em 1972 e em 1974). Sobre a sua experiência guineense acabaria por escrever um livro, "No Fist Is Big Enough to Hide the Sky".
Basil Davidson: um dos mais profundos conhecedores de África, foi jornalista e agente dos serviços secretos britânicos.
Moçambique foi a segunda das colónias portuguesas cujo solo pisou. Foi em Julho de 1968, ainda sob a liderança de Eduardo Mondlane, que estava presente, bem como Samora Machel. Voltou a Moçambique uma segunda vez durante a guerra, mas já depois de Mondlane ter sido assassinado, vítima da explosão de uma carta armadilhada, uma iniciativa da polícia política portuguesa, a PIDE.
A última colónia em armas que visitou foi Angola, no Verão de 1970. Acompanhado durante parte do percurso pelo próprio líder do MPLA, Agostinho Neto, "passei cinco semanas a andar a pé". Com a proverbial ironia britânica, acrescentou: "Acho que desde então nunca mais caminhei..."
Das cinco colónias portuguesas de África, só não foi a São Tomé e Príncipe.
Quanto a Cabo Verde, teve o ensejo de a visitar várias vezes, mas só depois do 25 de Abril. "Uma bela terra e um belo povo." A primeira vez foi logo no Verão de 1974, numa viagem de avião a partir de Bissau, acompanhado de Corsino Tolentino. Escreveu um livro sobre Cabo Verde, a que deu o título certeiro de "As Ilhas Afortunadas".
Jornalista na "Economist" e no "Times"
Depois de seis anos no Exército, foi o regresso à vida civil. No jornalismo, trabalhou para a "Economist", "The Times", "Daily Herald", "Daily Mirror", "New Statesman". O primeiro livro foi o "Partisan Picture" (1946). "Teve um grande sucesso, mas a uma escala reduzida, porque na realidade eu nunca vendi bem..."
Reacções de amigos
A Conselheira do Presidente da República, Teodora Inácia Gomes que foi amiga do jornalista Basil Davidson, manifestou a sua tristeza pela morte do jornalista e escritor, tendo lembrado que Basil Davidson era um amigo da Guiné.
Teodora Inácia Gomes endereçou os mais sentidos pesares à sua família e a todos aqueles que compartilharam o passado com Davidson.