“A classe política deve recuperar a confiança perdida”
O bispo de Bissau, D. José Câmnate Na Bissign, disse à Agência Lusa que a população está “ansiosa” e com “esperança” em relação à situação na
Guiné-Bissau e que os guineenses precisam de ter maior autoestima.
“Neste momento, a população está perplexa e ansiosa e por outro lado continua a alimentar a esperança de que mesmo que a situação seja complexa, desagradável, difícil, o país há de reencontrar-se consigo mesmo”, afirmou o bispo de Bissau.
A situação na Guiné-Bissau, onde a 1 de Abril houve uma intervenção militar em que foi deposto e detido o então chefe das Forças Armadas, Zamora Induta, foi objecto de discussão na VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na sexta-feira, em Luanda, Angola.
Segundo José Câmnate Na Bissign, a classe política devia “recuperar aquela capacidade de diálogo que tem faltado para se criarem consensos a fim de haver um clima político e social mais propício a uma reflexão séria para se sair desta situação de instabilidade permanente”.
“Eu acho que é importante que a classe política perceba isto imediatamente e tente recuperar a confiança que perdeu”, sublinhou.
O bispo de Bissau considera também que o “guineense precisa de acreditar mais em si mesmo”.
“Isto quer dizer que precisa ter maior autoestima, precisa de acreditar que o país tem recursos e que o guineense tem também valores que vêm da sua tradição e, se partirem desses valores, podem muito bem dar o salto de qualidade necessário para que esta desarticulação social em que vivemos possa ser ultrapassada e haja mais solidariedade e aproximação entre as pessoas”, disse.
José Câmnate Na Bissign defendeu também que na Guiné-Bissau é preciso maior empenho na “transformação social e económica necessária para que o país possa dar a cada cidadão o melhor e vice-versa”.
Questionado sobre as razões para a falta de autoestima dos guineenses, o bispo de Bissau explicou que está relacionada com as “frustrações e desilusões fruto dos conflitos desde a independência até à data presente”.
“Durante a luta pela libertação, a palavra independência era uma palavra mágica para todos os guineenses. Significava liberdade, justiça, bem-estar, progresso, sobretudo fraternidade, possibilidade de construir a sua própria felicidade trabalhando para o bem do país e da sociedade”, disse.
“Infelizmente esse sonho de se construir um país diferente, solidário, esse sonho foi frustrado várias vezes e o guineense, a partir de determinada altura, deixou de acreditar em si mesmo e no futuro”, concluiu.
População guineense já não acredita nos políticos e nos militares
A população da Guiné-Bissau já não acredita na classe política e nos militares, mas mesmo assim vai fazendo a sua vida normal, disse o porta-voz do Movimento Nacional da Sociedade Civil, Mamadu Queitá.
Segundo este responsável pelo Movimento, plataforma que congrega mais de cem organizações da sociedade civil guineense, “devido a várias vicissitudes dos últimos anos”, a população “praticamente deixou de acreditar na classe política e na classe castrense”.
“Essa confiança ficou mais danificada com os acontecimentos do passado dia 1 de Abril”, assinalou Mamadu Queita, aludindo ao levantamento militar que se deu nesse dia com o então número dois das Forças Armadas, António Indjai, a mandar destituir e deter o então Chefe do Estado-Maior General, Zamora Induta, que continua preso.
“A Guiné-Bissau é um país imprevisível, onde hoje podemos estar na situação A e amanhã na situação B. A população está apreensiva em relação ao futuro, mas também não deixa de fazer a sua vida normal”, defendeu o porta-voz da Sociedade Civil.
Para Mamadu Queita, a “única grande preocupação de momento” prende-se com a situação de debilidade económica que afecta o país decorrente da crise financeira mundial. Cerca de 80 por cento do Orçamento Geral de Estado (OGE) é financiado pela comunidade internacional, lembrou.
No entanto, o Movimento da Sociedade Civil pretende organizar com as autoridades políticas uma “grande conferência nacional” para a busca das “causas profundas da crise na Guiné-Bissau” e também lançar uma ofensiva de lobby junto dos parceiros internacionais do país no sentido de os pedir que não abandonem a Guiné-Bissau.
As organizações da sociedade civil pretendem com o gesto ajudar as autoridades políticas a convencer a comunidade internacional a não abandonar o país como resposta à nomeação do general António Indjai para a chefia das Forças Armadas.
“A nomeação do general António Indjai deve ser entendida pela comunidade internacional. Não havia outra alternativa aos responsáveis políticos, por isso apelamos a compreensão da comunidade internacional para que não vire as costas ao país neste momento”, declarou Mamadu Queita.